26/08/2004 - 19h15
Brasil iguala recorde de ouros à margem da Lei Piva
Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)
O Brasil igualou nesta quinta o recorde de medalhas de ouro em Olimpíadas (três), mas o resultado histórico deve pouco ou nada às iniciativas do governo para fortalecer financeiramente os esportes olímpicos. Vale dizer: a Lei Piva passou à margem dos sucessos do país em Atenas.
As primeiras colocações foram todas obtidas por estrelas consagradas, em cuja preparação o impacto das verbas da Lei Piva é restrito: Robert Scheidt (com seis patrocinadores), Torben Grael (com um) e Ricardo/Emanuel (com três) são esportistas que, pela fama e currículo, poderiam dispensar o dinheiro público.
O mesmo pode ser dito dos favoritos ao ouro do vôlei (que tem patrocinadores fortes) e da seleção de futebol feminino que ganhou prata (a CBF é a única confederação olímpica que não recebe verbas da Lei Piva -o time feminino é mantido com recursos da entidade).
Nas modalidades mais favorecidas pela Lei, o Brasil não justificou, com seus resultados, os mais de R$ 100 milhões em verbas públicas injetados desde 2002. A três dias do fim da Olimpíada, só um milagre fará o país bater o número de medalhas de Sydney-2000. Na esmagadora maioria das modalidades, as classificações finais dos brasileiros, até aqui, não são melhores do que as obtidas em Olimpíadas anteriores.
O judô, que conquistou duas medalhas de bronze e manteve a tradição de estar sempre no pódio desde 1984, havia levado duas pratas em Sydney-2000. Apesar de seu histórico, o esporte não tem qualquer patrocinador e investiu quase 90% de seus recursos -e quase o dobro do que foi gasto na Olimpíada passada- na preparação da seleção olímpica, mas os resultados não melhoraram.
As modalidades sem tradição no país, que são as mais dependentes das verbas públicas, também não tiveram resultados satisfatórios (veja quadro ao lado). Boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, tênis de mesa, tiro e triatlo não fizeram jus às verbas recebidas. Nos saltos ornamentais, apesar das expectativas de medalha alimentadas pela CBDA (Confederação Brasileira de Desportes Aquáticos), Juliana Veloso, principal nome do país, não foi a nenhuma final. César Castro, no trampolim, chegou à decisão, mas acabou na nona colocação. Cassius Duran tenta uma final na plataforma nesta sexta.
Ilhas de evolução
A ginástica, que evoluiu bastante mesmo antes do recebimento da Lei Piva -Daniele Hypólito foi prata no Mundial de 2001, e a Lei começou a destinar verbas para as confederações em 2002-, teve um desempenho histórico na Olimpíada: três finais, a primeira final por aparelhos (Daiane dos Santos), as melhores colocações no individual geral (Daniele, 12ª, e Camila Comin, 16ª). E os recursos públicos têm papel primordial nessa evolução -permitem que a Confederação pague salário às atletas e mantenha uma ótima estrutura de treinamento. Entretanto, Daiane, favorita ao ouro, acabou falhando e deixando a modalidade sem medalhas.
A natação foi outra modalidade que, apesar da falta de medalhas -pela primeira vez desde Seul-1988-, apresentou melhora em seu desempenho geral: os brasileiros chegaram a cinco finais, contra duas em Sydney-2000. Entretanto, o impacto das verbas da Lei Piva sobre a modalidade não é decisivo, representando menos de um quarto do seu orçamento -a entidade é patrocinada pelos Correios que, em 2002, destinaram R$ 4,5 milhões à confederação.
A vela é outra das modalidades que apresenta uma clara evolução. Além do ouro dos medalhões Scheidt e Grael, Ricardo Winicki, o Bimba, foi o quarto colocado na mistral. André Fonseca e Rodrigo Link acabaram em sexto na 49er. Mas nem só de Lei Piva vive a modalidade: a Petrobras injeta dinheiro na equipe olímpica brasileira.
Farra das passagens
O quadro é ainda mais negativo quando se leva em consideração que -por decisão das confederações- uma parte ínfima dos recursos públicos foi investida nas categorias de base das modalidades. A aposta no alto nível obedeceu à seguinte lógica: dar as melhores condições aos olímpicos, pois medalhas criam ídolos, que popularizam e atraem investimentos. Ficou em segundo plano a opção de investir na base, aposta sem resultados imediatos, mas com um crescimento futuro, em tese mais consistente e duradouro.
"Farra das passagens" (expressão cunhada pela ex-jogadora de basquete Paula) é a maneira mais didática de nomear essa política. Em 2003, as confederações gastaram quase R$ 10 milhões apenas nos guichês de companhias aéreas. Na conta, não está incluída a preparação olímpica - neste ano, quase todos fizeram estágios no exterior.
Feitas as contas, menos de 20% do dinheiro das confederações foi gasto com as categorias de base. E, mesmo nesse caso, a esmagadora maioria das verbas foi destinada a competições. Foram poucas as entidades que, como o atletismo e o handebol, desenvolveram projetos como escolas e centros para categorias de base e desenvolvimento de talentos. Os clubes, tidos como grandes "celeiros" de atletas, não recebem um tostão da Lei Piva.
O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, acredita que a Lei Piva ainda precisa de mais tempo para frutificar. Em entrevista à Folha de S.Paulo prévia à Olimpíada, citou o exemplo do vôlei, modalidade que coordenou antes de assumir o COB. Na sua conta, a medalha de prata obtida nos Jogos de Los Angeles (1984), considerada o momento decisivo da modalidade no Brasil, começou a ser preparada na metade da dácada de 1970. Resta saber se o COB está mirando em Pequim-2008 ou se os brasileiros podem perder as esperanças de marcar uma data para torcer por uma equipe olímpica de resultados consistentes.