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Carina Hata/UOL

O Brasil vai jogar com
garra e com o coração
Fernando Meligeni
Em São Paulo

Quando fui convidado a escrever esta coluna, gelei!!! Não porque tenha medo de desafios, muito pelo contrário, mas porque escrever sobre Olimpíadas é uma coisa muito difícil. É difícil porque é um evento onde o que manda é o coração.

Para um atleta, jogar as Olimpíadas é muito mais do que uma realização, mais do que um objetivo alcançado. É um motivo de vida, um orgulho!

Imagino que seja isso o que estão sentindo os nossos tenistas que estão em Atenas: Flávio Saretta, André Sá e Gustavo Kuerten.

Tive a grande oportunidade de ir para Atlanta, em 1996. Eu tinha uma expectativa gigante dentro de mim e sabia que quase ninguém acreditava que eu poderia chegar perto de uma medalha. Mas fui determinado a mostrar para o povo do meu país que tipo de atleta e pessoa eu sou.

Tudo o que eu tinha imaginado a respeito dos Jogos era pouco para o que vi lá dentro. Nos primeiros dias, era difícil me concentrar. Vi atletas que eu só conhecia da televisão ali, na minha frente, ao vivo, pegando o mesmo bondinho que eu para ir comer no refeitório.

Aliás, o bondinho que servia para circulação dentro da Vila era sempre uma festa. Era um monte de atletas, cada um falando uma língua diferente e achando que estava se fazendo entender. E o refeitório, então?! Era do tamanho de um Maracanã, lotado de mesas.

Outro momento de muita descontração e união dos atletas era quando todos voltávamos dos treinos ou dos jogos e nos reuníamos do lado de fora dos apartamentos para cantar uma música, jogar cartas, trocar informações sobre treinos ou mesmo falar um monte de besteira. Esses momentos eram ótimos porque, além de esquecer a pressão por um tempo, você tinha a oportunidade de conhecer os outros atletas.

Bom, falei de tudo e quase nem falei de como foi minha participação lá! O nível do torneio estava muito forte, com Agassi, Philippoussis, Bruguera, Costa e Ríos, entre outros. Como eu era um verdadeiro franco-atirador, e poucas pessoas esperavam alguma coisa emocionante de mim, fui correndo por fora com muita garra. Ganhei jogos que nem eu esperava.

Depois de chegar tão perto do grande sonho de um atleta, ficando em quarto lugar, não foi fácil voltar para casa sem a tão sonhada medalha olímpica. Mas aprendi uma coisa que ainda uso até hoje: não desistir jamais dos meus sonhos. A coisa mais importante para um atleta é ter a certeza de que deu 100%.

Fica clara a importância de cada detalhe, cada passo que você dá. Tudo pode fazer a diferença, ainda mais quando todos estão lá com o mesmo ideal: a medalha. Você precisa se superar para superar todos os outros.

Se eu pudesse dar um conselho aos nossos tenistas, diria para não olharem para trás, e que tudo é possível nas competições. Todos sabemos que até pode haver países com atletas em melhores condições, mas não existe um time - e para mim esse é o espírito olímpico - mais forte que o brasileiro.

Joguem com o coração, não pensem antes de se atirar em cada bola: não existem bolas perdidas. Encarem cada ponto como o último de suas vidas. Força, Brasil!!

Coluna publicada em 15/08/2004


Fernando Meligeni
Fernando Meligeni, 33 anos, é ex-tenista e ficou em quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Ele se despediu das quadras no Pan 2003, quando ganhou o ouro.

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